Viagem Cultural

Dicas e opiniões sobre assuntos diversos.

JUSTOS ENTRE AS NAÇÕES

Muitos conhecem a história de Oscar Schindler que foi retratada no filme de Steven Spielberg “A lista de Schindler” e no livro de mesmo nome.
Infelizmente, poucos sabem que o Brasil teve duas pessoas, que assim como Schindler, arriscaram suas vidas para salvar judeus do Holocausto: O diplomata Luiz Martins de Souza Dantas e  Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa.

Luiz Martins de Souza Dantas, nascido no Rio de Janeiro em 1876, foi responsável por conceder vistos de entrada no Brasil para judeus que fugiam do Holocausto. Concedeu mais de 500 vistos de forma “irregular”, salvando centenas de vidas.

Souza Dantas ingressou no Ministério das Relações Exteriores com 21 anos e no final de 1922 foi nomeado embaixador do Brasil na França.

No período da II Guerra, o então presidente do Brasil Getúlio Vargas, passou a incentivar a vinda de imigrantes com o objetivo de “melhorar a composição étnica do povo brasileiro” por meio da miscigenação. Portugueses, suecos e outros considerados etnicamente adequados eram bem vindos. Japoneses, judeus e outros indivíduos que não pertenciam a raça branca, não. Havia orientação do governo para que não fossem concedidos vistos nem mesmo temporários para essas raças.

Para as pessoas que fugiam do nazismo (Holocausto), obter um visto de saída da Europa era uma questão de vida ou morte, mas ao mesmo tempo algo muito difícil de conseguir uma vez que quase todos os países mantinham restrições com a entrada de refugiados.

A emissão de vistos cabia aos cônsules, e um embaixador raramente concedia visto, e só o fazia em casos excepcionais, e ainda assim era necessária uma autorização vinda do Rio de Janeiro exigindo documentos quase impossíveis de se conseguir. O objetivo era justamente impedir a concessão de vistos à pessoas “indesejáveis”.

Durante a II Guerra o governo francês se mudou para Vichy e o corpo consular brasileiro acompanhou a mudança saindo de Paris. Ao passar por cidades como Perpignan e Bordeux, Souza Dantas começou a  emitir vistos para estrangeiros, na maioria refugiados. Não seguiu nenhuma regra do governo brasileiro e não informou a origem étnica dos pretendentes. É provável que ele tenha emitido vistos mesmo antes de sua saída de Paris. A ajuda não era somente aos judeus, mas a qualquer grupo que era perseguido pelo nazismo, como os homossexuais e comunistas.

Em 12 de dezembro de 1940, Souza Dantas foi formalmente proibido de emitir vistos, porém há relatos de que refugiados estiveram com o embaixador nos primeiros meses de 1941 e receberam vistos com data retroativa.

Em 1941, o controle de vistos passou a ser incumbência do Ministério da Justiça, e incidentes envolvendo o impedimento de desembarque de refugiados no Brasil acabou por “denunciar” a transgressão de Souza Dantas.

Getúlio Vargas ordenou que se instaurasse um inquérito administrativo contra o embaixador e começou a tratar de sua substituição. Sabendo que iria ser processado, Souza Dantas mandou um telegrama ao Rio de Janeiro: “Lembro que, não havendo aqui consulado, me vi obrigado, sem perder um minuto, a assumir funções consulares para, literalmente, salvar vidas humanas, por motivo da maior catástrofe que sofreu até hoje a humanidade. Fiz o que teria feito, com a nobreza da alma dos brasileiros, o mais frio deles, movido pelos mais elementares sentimentos de piedade cristã”.

Apesar do inquérito ter sido instaurado, quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, Getúlio Vargas ordenou o arquivamento do processo.

Em 1942, a Alemanha invadiu a sede da Embaixada do Brasil e Souza Dantas e seus subordinados foram detidos. Em 1944 foram trocados por prisioneiros alemães que eram mantidos no Brasil. Os jornais trataram o embaixador como herói.

Vargas não queria ver um diplomata processado pelo governo em tal situação, e fez com que essas homenagens sumissem da mídia e tratou de manter Souza Dantas fora de evidência. Souza Dantas morreu em Paris em 1954, mesmo ano da morte de Getúlio Vargas.

Entre os judeus salvos por Souza Dantas estava o ator e diretor teatral Zbigniew Ziembinski

Os motivos para que a história de Souza Dantas não fosse conhecida pela maioria dos brasileiros, se deve ao fato de que os que zelaram pela memória “gloriosa” de Vargas sempre evitaram qualquer referência de sua simpatia ao fascismo, e como Souza Dantas não teve filhos (foi casado com uma judia americana chamada Elisa Meyer Stern), também contribuiu para que sua história heróica fosse esquecida.
Sua história foi resgatada pelo professor Fábio Koifman e contada em seu livro “Quixote nas trevas” em 2002.

Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa, nasceu em Rio Negro, Paraná, no ano de 1908. Em 1930 casou-se com um alemão, mas separou-se cinco anos depois, indo morar na Alemanhã. Falava quatro línguas (português, inglês, francês e alemão) e foi nomeada para trabalhar no consulado brasileiro em Hambrubgo, onde chefiou a seção de passaportes.

Em 1938, Vargas convencido pela propaganda nazista de que judeus eram perigosos, decreta a Cicrular Secreta 1.127 que restringia a entrada de judeus no Brasil. Os vistos para judeus eram dados pelo cônsul e obrigatoriamente deveriam ter um “J” vermelho.

Contrariando as ordens do Itamarti, Aracy criou um jeito de ajudar os judeus. Como despachava diretamente com o cônsul geral, ela colocava os vistos entre as papeladas para ele assinar, deixando de colocar o “J” vermelho que os identificava. Muitos judeus vinham de outras cidades para que seus vistos pudessem ser emitidos, e era necessário provarem que moravam na região. Aracy também “conseguia” os comprovantes.

O cônsul adjunto era o famoso escritor Guimarães Rosa, que soube do que ela fazia e apoiou sua atitude. Isso contribuiu para que ela intensificasse esse trabalho livrando muitos judeus da morte. Assim como Souza Dantas, Aracy e Guimarães Rosa ficaram sob custódia do governo alemão quando foram rompidas relações diplomáticas entres os dois países, em 1942.
Foram trocados por diplomatas alemães. Casaram-se no México (ambos eram separados e no Brasil não havia ainda divórcio).

Em 1985 Aracy viajou para Jerusalém para inaugurar uma placa comemorativa em um bosque que leva o seu nome. Foi a sua última viagem internacional.

Aracy sofria de Mal de Alzheimer e morreu de causas naturais no dia 3 de março de 2011 em São Paulo, aos 102 anos. Para ela, seu marido ofereceu o seu famoso livro “Grande Sertão: Veredas”.

Israel possui um memorial oficial para lembrar das vítimas do Holocausto, chamado Yad Vashem.
Nesse memorial os não judeus são homenageados com o prêmio “Justos entre as Nações”. Para receber tal honra era necessário três requisitos: arriscar a própria vida, arriscar cargo e posição social, e salvar pessoas.

Aracy de Carvalho Guimarães Rosa e Luiz Martins de Souza Dantas são os únicos brasileiros homenageados como “Justos entre as Nações”.

http://www.quixotenastrevas.com.br

Anúncios

18/03/2011 - Posted by | Livros, Preconceito | , ,

3 Comentários »

  1. Nossa Airton, que bonito. Só vc pra encontrar historias como estas, fala sério hem? Mais Aracy morreu entao este ano?

    Comentário por Leide Nanci | 19/03/2011 | Responder

    • Ola Leide,
      infelizmente a Dona Aracy morreu há mais ou menos quinze dias aqui em São Paulo com 102 anos. Ela sofria de mal de alzheimer.
      Uma mulher que fez tanto pelas pessoas, mas já não se lembrava mais. Uma grande perda.

      Comentário por Airton | 19/03/2011 | Responder

  2. É uma pena que hoje a cultura brasileira não se baseia nas atitudes de grandes pessoas como a D. Aracy Guimaraes Rosa e o Sr. Luiz Martins, e tantos outros.

    Comentário por Lara | 20/03/2011 | Responder


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: