Viagem Cultural

Dicas e opiniões sobre assuntos diversos.

CEGUEIRA D’ ALMA

CEGO É AQUELE QUE SÓ PODE VER O ÓBVIO,

QUE NÃO SE AVENTURA EM TIRAR O CABRESTO.

AQUELE QUE SÓ VÊ O SUPERFICIAL,

QUE ACREDITA EM COINCIDÊNCIAS…

E QUE NÃO PERCEBE O QUE ESTÁ NAS ENTRELINHAS DA VIDA.

BEM AVENTURADO AQUELE QUE ENXERGA O PERFUME DAS ROSAS,

A BRISA CÁLIDA DE UMA NOITE DE VERÃO

OU O SOM DO SILÊNCIO QUE VEM DO CORAÇÃO.

Flávia C. Ruivo


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22/12/2011 Posted by | Poema, Poesia & Cia | | Deixe um comentário

LEI

O que é preciso é entender a solidão!
O que é preciso é aceitar, mesmo, a onda amarga
que leva os mortos.

O que é preciso é esperar pela estrela
que ainda não está completa.

O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa,
e os lábios de ouro puro.

O que é preciso é que a alma vá e venha;
e ouça a notícia do tempo,
e. entre os assombros da vida e da morte,
estenda suas diáfanas asas,
isenta por igual.
de desejo e de desespero.

Cecília Meireles, in ‘Poemas (1954)’

02/11/2011 Posted by | Poema, Poesia & Cia | , | Deixe um comentário

ALMAS PERFUMADAS

Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta.
De sol quando acorda.
De flor quando ri.
Ao lado delas, a gente se sente
no balanço de uma rede que dança gostoso
numa tarde grande, sem relógio e sem agenda.
Ao lado delas, a gente se sente
comendo pipoca na praça.
Lambuzando o queixo de sorvete.
Melando os dedos com algodão doce
da cor mais doce que tem pra escolher.
O tempo é outro.
E a vida fica com a cara que ela tem de verdade,
mas que a gente desaprende de ver.
Tem gente que tem cheiro de colo de Deus.
De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul.
Ao lado delas, a gente sabe
que os anjos existem e que alguns são invisíveis.
Ao lado delas, a gente se sente
chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo.
Sonhando a maior tolice do mundo
com o gozo de quem não liga pra isso.
Ao lado delas, pode ser abril,
mas parece manhã de Natal
do tempo em que a gente acordava e encontrava
o presente do Papai Noel.
Tem gente que tem cheiro das estrelas
que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos
acender na Terra.
Ao lado delas, a gente não acha
que o amor é possível, a gente tem certeza.
Ao lado delas, a gente se sente visitando
um lugar feito de alegria.
Recebendo um buquê de carinhos.
Abraçando um filhote de urso panda.
Tocando com os olhos os olhos da paz.
Ao lado delas, saboreamos a delícia
do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.
Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa.
Do brinquedo que a gente não largava.
Do acalanto que o silêncio canta.
De passeio no jardim.
Ao lado delas, a gente percebe
que a sensualidade é um perfume
que vem de dentro e que a atração
que realmente nos move não passa só pelo corpo.
Corre em outras veias.
Pulsa em outro lugar.
Ao lado delas, a gente lembra
que no instante em que rimos Deus está conosco,
juntinho ao nosso lado.
E a gente ri grande que nem menino arteiro.
Tem gente como você que nem percebe
como tem a alma Perfumada!
E que esse perfume é dom de Deus.

CUIDE BEM DE SEU AMOR, SEJA QUEM FOR!

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

23/12/2010 Posted by | Poema, Poesia & Cia | , , , | 1 Comentário

INFERNO NACIONAL

Diz que era uma vez um camarada que abotoou o paletó. Ao morrer nem conversou: foi direto para o Inferno. Em lá chegando, pediu audiência a Satanás e perguntou:

Qual é o lance aqui?

Satanás explicou que o Inferno estava em diversos departamentos, cada um administrado por um país, mas o falecido não precisava ficar no departamento administrativo pelo seu país de origem. Podia ficar no departamento do país que escolhesse. Ele agradeceu muito e disse a Satanás que ia dar uma voltinha para escolher o seu departamento.

Está claro que saiu do gabinete do Diabo e foi logo para o Departamento dos Estados Unidos, achando que lá devia ser mais organizado o inferninho que lhe caberia para toda a eternidade. Entrou no Departamento dos Estados Unidos e perguntou como era o regime.

– Quinhentas chibatadas pela manhã, depois passar duas horas num forno de 200 graus.
Na parte da tarde: ficar numa geladeira de 100 graus abaixo de zero até às três horas, e voltar ao forno de 200 graus.

O falecido ficou besta e tratou de cair fora, em busca de um departamento menos rigoroso. Esteve no da Rússia, no do Japão, no da França, mas era tudo a mesma coisa. Foi aí que lhe informaram que tudo era igual: a divisão em departamentos era apenas para facilitar o serviço no Inferno, mas em todo o lugar o regime era o mesmo: quinhentas chibatadas pela manhã, forno de 200 graus durante o dia e geladeira de 100 graus abaixo de zero, pela tarde.

O falecido já caminhava desconsolado por uma rua infernal, quando viu um departamento escrito na porta: Brasil. E notou que a fila à entrada era maior do que a dos outros departamentos. Pensou com suas chaminhas: “Aqui tem peixe por debaixo do angu”.
Entrou na fila e começou a chatear o camarada da frente, perguntando por que a fila era maior e os enfileirados menos tristes. O camarada da frente fingia que não ouvia, mas ele tanto insistiu que o outro, com medo de chamarem a atenção, disse baixinho:

Fica na moita, e não espalha não. O forno daqui está quebrado e a geladeira anda meio enguiçada. Não dá mais de 35 graus por dia.

E as quinhentas chibatadas? perguntou o falecido.

Ah… o sujeito encarregado desse serviço vem aqui de manhã, assina o ponto e cai fora.

“Fiquei impressionada… como um texto antigo pode ser tão atual, esse continua sendo o retrato do nosso Brasil”.

 


Sérgio Marcus Rangel Porto
Nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e faleceu nesta mesma cidade em 1968.
Cronista, humorista, jornalista. Estudou arquitetura até o terceiro ano, mas abandonou o curso para dedicar-se ao jornalismo, profissão que exerceu paralelamente ao emprego de bancário no Banco do Brasil, onde permaneceu entre os anos de 1942 e 1965.
Comentarista esportivo e repórter policial, a partir de 1949 iniciou intensa atividade jornalística em periódicos como Tribuna de Imprensa, Diário da Noite, O Jornal, A Carapuça e revistas como Manchete, Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Mundo Ilustrado, entre outras. No jornal Diário Carioca assume, em 1951, o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, homenagem ao personagem Serafim Ponte Grande, do escritor Oswald de Andrade (1890 – 1954).
Durante sua vida, além de cronista e autor satírico, dedicou-se a atividades muito variadas, como comentarista esportivo e redator humorístico nas rádios Mayrink Veiga e Guanabara, no Rio de Janeiro; apresentador, redator e locutor em programas de televisão; roteirista de chanchadas.
Alcançou sucesso editorial com os três volumes de Febeapá (Festival de Besteira que Assola o País), título que parodia o uso de siglas pela ditadura militar, publicados em 1966, 1967 e 1968.

 

14/08/2010 Posted by | Poema, Poesia & Cia | , , | Deixe um comentário

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

18/07/2010 Posted by | Poema, Poesia & Cia | , | Deixe um comentário

NA ILHA POR VEZES HABITADA

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.
 
José Saramago
 
 

                                                                               

19/06/2010 Posted by | Poema, Poesia & Cia | , | Deixe um comentário

CANTEIROS

“Quando penso em você fecho os olhos de saudade

Tenho tido muita coisa, menos a felicidade

Correm os meus dedos longos em versos tristes que invento

Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento

Pode ser até amanhã, cedo claro feito dia

mas nada do que me dizem me faz sentir alegria

Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa

Para correr entre os canteiros e esconder minha tristeza

Que eu ainda sou bem moço para tanta tristeza

E deixemos de coisa, cuidemos da vida,

Pois se não chega a morte ou coisa parecida

E nos arrasta moço, sem ter visto a vida.”

Cecília Meireles

05/05/2010 Posted by | Poema, Poesia & Cia | , , | Deixe um comentário

MARCHA

Marcha

As ordens da madrugada

romperam por sobre os montes:

nosso caminho se alarga

sem campos verdes nem fontes.

Apenas o sol redondo

e alguma esmola de vento

quebraram as formas do sono

com a ideia do movimento.

Vamos a passo e de longe;

entre nos dois anda o mundo,

com alguns vivos pela tona,

com alguns mortos pelo fundo.

As aves trazem mentiras

de países sem sofrimento.

Por mais que alargue as pupilas,

mais minha duvida aumento.

Também não pretendo nada

senão ir andando a toa,

como um número que se arma

e em seguida se esboroa,

— e cair no mesmo poço

de inércia e de esquecimento,

onde o fim do tempo soma

pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra

pelo sabor que lhe deste:

mesmo quando e’ linda, amarga

como qualquer fruto agreste.

Mesmo assim amarga,

e’ tudo que tenho,

entre o sol e o vento:

meu vestido, minha música,

meu sonho, meu alimento.

Quando penso no teu rosto,

fecho os olhos de saudades;

tenho visto muita coisa,

menos a felicidade.

Soltam-se os meus dedos tristes,

dos sonhos claros que invento.

Nem aquilo que imagino

já me dá contentamento.

Como tudo sempre acaba,

oxalá seja bem cedo!

A esperança que falava

tem lábios brancos de medo.

O horizonte corta a vida

isento de tudo, isento…

Não há lagrima nem grito:

apenas consentimento.

               Cecília Meireles

16/12/2009 Posted by | Poema, Poesia & Cia | , | Deixe um comentário

VICE PRESIDENTE JOSÉ ALENCAR

José Alencar

“Deus não precisa de um câncer para me levar. Se Ele quiser, Ele me leva com ou sem câncer.”

Após anos lutando contra o câncer, o Vice Presidente José Alencar (17/10/1931 – 29/03/2011) ao ser informado sobre um novo tumor no abdome ainda teve sabedoria, discernimento e fé para proferir a frase acima.

Essa é uma daquelas frases que coloca a gente pra’ refletir sobre a nossa própria vida.

09/11/2009 Posted by | Poema, Poesia & Cia | , | 1 Comentário

VOCÊ É UM NÚMERO

CLARICE

“Se você não tomar cuidado vira um número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista, tem carteira com número, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte é identificado com um número. Seu prédio, seu telefone, seu número de apartamento – Tudo é número.
Se é dos que abrem crediário, para eles você também é um número. Se tem propriedades, também. Se é sócio de um clube tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras tem número da cadeira.
É por isso que vou tomar aulas particulares de Matemática. Preciso saber das coisas. Ou aulas de Física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral.
Se você é comerciante, seu alvará de Localização o classifica também. Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações também recebe um, como acionista de uma companhia. É claro que você é um número no recenseamento. Se é católico recebe um número de batismo. No Registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica tem. E quando a gente morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também.
Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número. A minha amiga contou que no Alto do Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao Posto de Saúde. E recebeu a ficha com o número 10. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pode ser atendida porque só atenderam até o número 9. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados. Se há uma guerra, você é classificado por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica.
E Deus não é número. Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número seco, como um osso branco seco exposto ao Sol. Meu número íntimo é 9. Só 8. Só 7. Só. Sem somá-los nem transformá-los em novecentos e oitenta e sete. Estou me classificando com um número? Não, a intimidade não deixa. Veja, tentei várias vezes na vida não ter um número e não escapei. O que faz com que precisemos de muito carinho, de nome próprio, de genuinidade. Vamos amar que o amor não tem número. Ou tem?”

A descoberta do Mundo
Clarice Lispector

09/11/2009 Posted by | Poema, Poesia & Cia | , | 2 Comentários